Regressam a Lagos os corpos infinitos

Written by on Junho 20, 2019

NUM VALE DO AQUI, de Daniel Matos

Analisar o corpo como espaço arqueológico é uma necessidade absoluta da contemporaneidade. Perceber que o “eu” físico e o “eu” emocional residem dentro de uma massa-paisagem potencia então esta opção do corpo como centro de uma obra artística e em como é possível a sua mutação em lugar e não-lugar tanto para si como para o outro. A constante procura de um sítio onde possamos ancorar-nos como indivíduos e na fuga constante, na procura constante de um encontro pessoal, reforçando a ideia de necessidade e pertença dos outros e aos outros é a questão motriz que conduz uma pesquisa do corpo como espaço arqueológico. A escavação arqueológica daquilo que está dentro dos contornos de um corpo suscita uma construção coreográfica crua, analisando esta ideia da necessidade do outro como um mergulho a um espaço interior.

A necessidade de pertença ao outro, e de aquisição do outro, contamina e restringe a formação de seres individuais e coletivos, inibindo vontades, desejos, necessidades e exposições, redesenhando a maneira como o corpo se autoconhece e se apresenta.

A obra “Num Vale do Aqui” da autoria de Daniel Matos regressa ao Centro Cultural de Lagos nos próximos dias 21 e 22 de Junho, desenvolvida em conjunto com a interpretação de Adriana Xavier, Mélanie Ferreira, Hugo Mendes, Lia Vohlgemuth e Rodrigo Teixeira, onde a ideia de pertença reúne o coreógrafo e os cinco intérpretes num espaço de partilha dos corpos, revelando um trabalho construtor de um universo denso carregado de simbologias e de uma estética própria.

Daniel Matos (Lagos, 1996) é Licenciado pela Escola Superior de Dança e encontra-se actualmente no Mestrado em Artes Cénicas pela FCSH-UNL. É coreógrafo, bailarino e performer, colaborando com estruturas culturais como a Casa Branca e com coreógrafos e encenadores como Romeo Castellucci, Ana Borralho & João Galante, Amélia Bentes, Angélica Liddell, Barbara Griggi, entre outros. Desenvolve também trabalho em artes e multimédia através de instalação vídeo e sonora, em colaboração com Joana Flor Duarte.

“Num Vale do Aqui” é uma produção da CAMA – associação cultural, uma estrutura sediada no Algarve que visa a criação artística contemporânea, a educação através da arte e a internacionalização de obras performativas, com direcção de Daniel Matos e Joana Flor Duarte.

É também uma co-produção do Teatro Experimental de Lagos e da Câmara Municipal de Lagos.

“Os olhares infinitos como abraços abertos. Não te posso acolher como espaço,como lugar porque não me conheço. Procuramos uma impressão nos outros, no fundo da carne…”

FICHA TÉCNICA

Num Vale do Aqui – 21 e 22 de Junho | Centro Cultural de Lagos| 21h30

Direção Artística e Coreografia| Daniel Matos

Interpretação | Adriana Xavier, Lia Vohlgemuth, Mélanie Ferreira, Hugo Mendes e Rodrigo Teixeira.

Cocriação| Adriana Xavier, Lia Vohlgemuth, Margot Suzi, Mélanie Ferreira, Rodrigo Lemos e Rodrigo Teixeira.

Intérpretes Estagiárias e Assistência de Ensaio | Ana Silva e Leonor Lopes

Composição Musical | Daniel Matos e Nelson Nunes

Desenho de Luz | Daniel Matos e Gi Carvalho

Cenografia e Concepção Plástica | Daniel Matos

Apoio à Dramaturgia | Francisco Pedro

Figurinos e Adereços Têxteis | Bruna Porto

Fotografia e Vídeo| Joaquim Leal, Fátima Vargas, Rodrigo Rosário e Daniel Matos

Design Gráfico | Rodrigo Rosário

Produção | CAMA associação cultural

Coprodução | Teatro Experimental de Lagos, Câmara Municipal de Lagos

Direção de Produção | Joana Flor Duarte

Assistência de Produção | Beatriz Marques Dias e Davide Vicente

Apoios | Companhia Olga Roriz, EIRA, Companhia Clara Andermatt, Companhia Nacional de Bailado – Estúdios Victor Córdon, IPDJ, Câmara Municipal de Lagos, LAC, Direcção Regional da Cultura do Algarve, Junta de Freguesia de São Gonçalo de Lagos, EKA Palace, Leroy Merlin, Estúdio CAB, e Rádio Utopia.

SINOPSE | Vais quebrar-me consecutivamente na esperança de guardar um caco, de dedilhar um fio, de revelares a penumbra do teu reflexo numa fenda minha. O meu corpo não me conhece, nunca soube o que quis ser. Nunca se quis a si. Para onde olho vejo montanhas rosa de mágoa que moem esse caminho do momento. Inundam-nos as almas de um pranto branco consecutivo. As flores pálidas dos umbigos murcham no bater do som do tempo, espelhadas nas janelas deste arco sem fim…

Voltámos juntos de superfícies diferentes e desvendaste o meu corpo como uma arqueologia dos contornos. Os nossos corpos são não lugares, uma paisagem, uma miragem pela qual passam consecutivamente sem ver que não somos daqui, que este espaço não nos engole, que a pertença é realmente escassa. E se eu te habitar? Posso dizer-te que sou teu e que tu és meu e que eu pertenço dentro de ti? Agora sou o teu lugar.

Num Vale do Aqui é uma procura constante de lugares e não lugares nos corpos individuais que se espelham nos outros, relacionando a temática da pertença com a necessidade de alojamentos emocionais para a criação de colectivos unos. A colecção constante de paisagens efémeras abrem portas a escolhas e fugas de acontecimentos agitados, envoltas numa pesquisa arqueológica do espaço biológico que nos acompanha neste percurso efémero.

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